Existe Reencarnação?

Eu tenho um cão e um gato. Eles aprenderam a fazer coco e pipi no local certo.                              

Sabe por quê?                                                              

Porque eu os pego no ato e levo para o local adequado e ao mesmo tempo fico gritando, “Não pode”! 

Esse método funciona porque o cão ou gato percebe o que está fazendo e associa a desaprovação com o ato que esta praticando.      

E com o tempo eles aprendem a não fazer suas necessidades em nenhum outro local a não ser o indicado. 

Se você vir o cachorro fazendo suas necessidades em um local proibido, esperar uma hora e depois xingá-lo, não funciona. 

Ele não vai aprender nada porque não sabe o motivo de estar sendo punido. 

Sendo assim, é pura perda de tempo e até crueldade, puni-lo. 

O mesmo acontece com uma criança. Se uma criança não sabe por que está sendo punida porque não se lembra do que fez, a punição é cruel e injusta, sendo assim até com as crianças convém punir em tempo hábil. 

Vamos a reencarnação. Nela, eu estaria na mesma condição do cão. 

Estaria sendo punido por um crime que não sei que cometi. Se eu não me lembro de nada, a punição sempre será injusta para mim. 

Vou dar-lhe outro exemplo prático. Suponhamos que você esteja aprendendo a dirigir. Eu te ensino tudo que tem que fazer. 

Passamos uma tarde inteira treinando e no dia seguinte, você esquece tudo que lhe ensinei. Tenho que começar tudo de novo.E assim por diante. 

É óbvio que você nunca vai evoluir dessa forma. Nunca vai aprender nada assim, pois o processo de aprendizagem é cumulativo. 

É como a adição. Todo dia vai se acrescentando algo até chegar a um total. 

Esse total seria o que você aprendeu. Sem memória não há aprendizagem. 

Outro detalhe, a memória é mais importante do que se imagina. A memória é aquilo que somos. 

Quando somos criança absorvemos aquilo que dizem a nosso respeito. 

Para uma pessoa dizem, “Você é brasileiro, teu nome é José, e sua mãe é fulana e assim por diante. 

” Você é o resultado de tudo que dizem que você é e mais as experiências que você teve acrescido as suas tendências genéticas. 

Dependendo da sociedade que nascer, você será totalmente diferente. Se você tivesse nascido nos EUA, hoje seria outra pessoa. 

Se tivesse nascido na Etiópia, também. Tendências naturais fora e além de seu controle equivalem a pelo menos 90% do que você é. 

“E isso é um fato cientifico”. Mas a sua personalidade não poderia se desenvolver dentro de nenhum sistema cultural sem memória. Imagine se você ensina a seu filho quem ele é, sobre sua família, suas raízes, sua cultura e assim por diante e ele esquece tudo no dia seguinte? 

Não haveria evolução alguma. Como somos aquilo que lembramos que somos, a teoria da reencarnação cai por terra ai. 

O karma também é um conceito difícil de engolir. O karma é como se fosse o próprio Deus. 

Ele fica anotando tudo que você faz, momento a momento, e depois manipula as circunstâncias para você sofrer pelo que fez ou conseguir bençãos. 

Esse tipo de sistema não é compatível com o livre arbítrio. Ou seja, para o karma fazer você pagar ou ser recompensando, ele teria que manipular pessoas e circunstâncias para esse fim. Sendo assim, as pessoas não seriam livres. 

Ou pelo menos a grande maioria de suas ações não seriam geradas por si próprias, pois elas teriam que cumprir a vontade do Karma. 

E assim o Karma estaria usando uma pessoa para punir outra. 

Digamos que usa alguém para lhe dar uma surra porque você deu uma surra em outra pessoa em outra vida. 

Essa pessoa que está te dando uma surra hoje para puni-la vai ser punida também? 

Se você está sendo estuprada, você está pagando pelo que fez antes, então o estuprador está apenas cumprindo a vontade de Deus fazendo você pagar ou estaria ele iniciando a ação e gerando karma? 

E se é o caso, então você não pode explicar todos os seus sofrimentos baseando-se em vidas passadas.        

Muito do seu sofrimento seria sem causa mesmo. Está vendo? 

O tipo de controle que o karma teria que ter sobre todas as pessoas seria algo incompreensível. 

É muito mais fácil imaginar que as pessoas fazem o que querem e sofrem ou não consequências de seus atos dependendo das circunstancias e não de uma força invisível controlando às mesmas. É mais simples e prático e lógico. 

O livre arbítrio exige o acaso. Somente num sistema imprevisível como é o nosso a liberdade poderia existir. 

Liberdade de decidir o que é certo e errado. Se existir uma força controlando tudo, ninguém é livre e punições e recompensas se tornam injustiças. 

O arrependimento só é possível com a memória. Se eu não lembro que fiz algo ruim, então como vou me arrepender? 

No campo individual a teoria da reencarnação é totalmente inútil. Se você aceitar a teoria da reencarnação, tudo de ruim que acontece com você, você pensa que é punição por faltas passadas e ai aguenta calado. Aceita numa boa. 

Consola-se pensando que é um criminoso e que tudo que lhe acontece é merecido. 

É por isso que sociedades que aceitam essa teoria não trouxeram evolução social. Quem nasce pobre se conforma com a pobreza pensando que na próxima vida vai nascer melhor já que foi bom nessa. E o que é ser bom?                

Aguentar tudo calado e aceitar sua condição social é bondade? 

A história mostra que não. A Europa só evoluiu e arrastou o resto do mundo quando pessoas em condições sociais inferiores se revoltaram. 

Se acreditassem na reencarnação nunca fariam isso. Essa crença leva ao conformismo. 

Já que todos são criminosos, aceitam todo sofrimento numa boa sem reclamar. 

Se o ser humano aceitasse o sofrimento, o mundo não teria evoluído.                

Qualquer teoria que leve a aceitação do sofrimento é nociva à sociedade.                            

O sofrimento tem que ser reduzido ou eliminado o máximo possível. 

Qualquer tipo de sofrimento é injusto. Só isolamos alguém na cadeia para reduzir o sofrimento e não para aumenta-lo.        

É melhor um sofrendo que vários. Quando o ser humano primitivo queria algo, simplesmente ia e tomava. 

Depois passou a viver em sociedade.        

E ai a natureza selecionou um sistema para garantir a sobrevivência. 

Quando digo que ela selecionou, não estou dizendo que ela fez isso de propósito. 

O que aconteceu foi o seguinte: milhares de animais morreram porque não tinham um sistema que funcionasse. 

Quando um sistema que funcionou surgiu, ele permaneceu. Esse sistema desenvolvido pelos animais sociais é o sistema hierárquico. 

Ou seja, todo grupo de animais tem um chefe. Isso funciona, porque sem um chefe (o chefe é o mais poderoso da turma), os animais lutam o tempo todo entre si. O chefe apareceu para manter a paz e garantir a partilha dos recursos. Antes da existência do líder, a vida social era uma luta constante. 

O que tem isso a ver com a reencarnação? 

O sistema hierárquico entre os animais sociais funciona. 

Se você examina-lo atuando em vários grupos de animais sociais verá que é um fator positivo e explica muitos fatos. 

A reencarnação não explica as coisas a contento. A vida social é injusta porque as pessoas nascem diferentes. 

Uns nascem inteligentes, fortes e bonitos. 

Enquanto outros nascem feios, burros e fracos. 

Ou então uns nascem com algumas dessas qualidades e sem as outras. 

O fato é que sempre existe um membro da sociedade superior ao outro de algum modo. 

Essa superioridade é individual e não racial. Tanto que existem burros e inteligentes em todas as raças. 

Assim como feios e bonitos e assim por diante. 

Você acha que se a Sandy tivesse nascido na Etiópia, ela teria se tornado o sucesso que é?

Tudo que você é, é resultado de muitos fatores.    

Agora dizer que a Sandy nasceu assim porque ela foi melhor que alguém que nasceu na Etiópia na outra reencarnação é puro elitismo. 

Você está dizendo que a Sandy é melhor que uma criança da Etiópia não só por causa das circunstancias em que nasceu como também moralmente. 

Você está dizendo que ela é rica, bonita, canta bem porque é moralmente superior a quem nasceu na Etiópia. 

Está dizendo que uma pessoa saudável, rica e bela é moralmente superior a uma pessoa aleijada, feia e pobre. 

Por isso a ideia da reencarnação é o pensamento mais elitista e arrogante que conheço para explicar fatos naturais. 

A teoria da reencarnação surgiu para explicar a injustiça do nascimento. Uma pessoa há muito tempo atrás perguntou, “Por que uns nascem superiores e outros inferiores? ” Isso é uma injustiça! 

Daí ele desenvolveu a teoria da reencarnação para explicar a justiça e injustiça do mundo. 

Só que ela não funciona por causa dos fatores citados acima. Ao invés de trazer justiça ao sistema, ela trás mais injustiças ainda. 

Porque um ser humano sente pena do outro?                  

Por causa de uma coisa chamada empatia. E não por causa da reencarnação. 

A empatia depende muito da sensibilidade de cada um. 

Tem gente que nunca consegue se por no lugar do próximo, e ai se mostram muito insensíveis. 

A reencarnação procura mostrar que os insensíveis ainda terão que nascer muito para desenvolver a sensibilidade. Mas o fato é que é a sociedade de cada um que determina esse grau de sensibilidade e não o individuo mesmo.              

Quanto mais avançada moralmente uma civilização maior à capacidade de ser por no lugar do outro. 

Exemplos, quanto mais avançada é a cultura de um individuo mais sensível ele é. Europeus se preocupam com os direitos dos animais porque suas necessidades básicas foram preenchidas. 

Crianças da Etiópia sofrem tanto que não conseguem pensar em ninguém a não ser elas mesmas. 

Se a reencarnação fosse um fato, ninguém nasceria em condições que promovessem a insensibilidade e a violência e sociedades menos evoluídas desenvolvem mais esses fatores. De novo a reencarnação se mostra elitista. 

Ela está dizendo de fato que quem é sensível é  mais evoluído moralmente, esquecendo-se de todos os fatores sociais e naturais que levam uma pessoa a ser assim. O que você é, é determinado pelo seu corpo, sua família, sua sociedade. 

Tantos fatores que o próprio Buda, que apoiava a teoria da reencarnação porque nasceu na Índia, questionou a mesma e no final disse que não temos um ego de fato. Que o que somos é uma relação de vários fatores e que se você analisar tudo no final chegará à conclusão que o ego ou alma não passa de fantasia. Outro detalhe. A população aumentou bastante nos últimos 500 anos. 

De onde estão vindo todos esses espíritos?Muita gente faz terapia de vidas passadas, mas matematicamente a grande maioria estaria aqui pela primeira vez, mas os “terapeutas” nunca falam para ninguém que essa é sua primeira vez.  

Qualquer um que procurar fazer essa terapia será dito que já passou por aqui antes. 

A lei da estatística diz o contrário. 

A reencarnação também é uma teoria oposta a Deus e a Cristo.    

Qual a necessidade para Deus num sistema de causa e efeito como a reencarnação? 

Toda a ação gera uma reação e todo o processo é automático. Para que serviria Deus? 

Por isso o budismo é um sistema essencialmente ateu. 

Alguns outros sistemas querem juntar reencarnação e a ideia de Deus, mas não conseguem. 

E também se você evolui de vida em vida nascendo em condições cada vez melhores, qual a necessidade para um salvador? 

No sistema reencarnacionista, um salvador é inútil. Só que no sistema reencarnacionista as ideias de inferno e céu e medo permanecem. 

E até bem mais reais. O inferno seria um país como o Afeganistão, e o paraíso é um país Europeu ou os Estados Unidos. 

Você se torna bom para nascer nos EUA e evita o mal para não nascer na Etiópia. 

É a ideia do medo que predomina do mesmo modo. 

Texto de J.M. Silva

 

 

A Vida é Como Café...

 

Em sua cadeira de balanço, meu avô tragava o seu cachimbo deixando no ar pequenas nuvenzinhas de fumaça, que aos meus olhos de adolescente, se tornavam figuras estranhas que iam subindo, subindo até chegar ao céu.

Vendo-me ali sentada numa confortável poltrona de espuma, interrogava-me se queria ouvir histórias. Era tudo o que eu queria. Ele contava coisas que atiçavam minha imaginação. Tinha eu quinze anos.

Neste dia, disse que me contaria um grande segredo. Senti minha boca secar de ansiedade. Mistérios, segredos e coisas futuras eram minhas histórias preferidas.

Arregalei os olhos e fiquei aguardando com impaciência. Deu uma forte tragada e então começou: Vou lhe contar como viemos ao mundo.

− Ora bolas vovô, isso eu já sei!...

− Exclamei indignada.

− Não sabe não minha querida!...

Estou falando de antes do nascimento do corpo.

− Como assim?...

Antes do nascimento do corpo?...

− Digo antes de estar na barriga de nossa mãe.

− Mas antes disso não existíamos!...

− Aí é que você se engana!...

Muito antes da criação deste mundo, nós já estávamos predestinados.

− Isso é loucura!...

Onde é que estávamos então?

−Numa grande sala de espera...

Todos dormindo...

Até serem despertados quando fosse o momento de cruzar para este lado do universo...

− Essa não!...

Não consigo acreditar nisso.

− Mas é a pura verdade.

A maioria não gosta de acreditar e nem sequer pensar sobre isso, porque vão descobrir que fomos nós mesmos que escolhemos ser quem somos aqui...

− Impossível vovô...

Eu jamais escolheria ser uma garota comum.

− Mas antes de virmos prá cá, desconhecíamos qualquer tipo de sofrimento ou privação...

Certamente nossa escolha teve a ver com outros valores.

− Então fomos injustiçados...

Porque se soubéssemos evitaríamos essa escolha...

− Não minha cara, cada um escolheu por causa do prêmio que receberia depois de concluir a tarefa aqui...

Cada papel a ser representado dava direito a um tipo de presente.

E nesse caso, como cada pessoa possui uma identidade única, certamente a decisão foi por aquilo que se sentia atraído individualmente.

− Algo não se encaixa nesta história...

Minha cabeça está fervendo de perguntas.

Dessa vez o senhor foi longe demais.

Por exemplo: Os bebês que morrem ao nascer...

Crianças que ainda não tem noção de certo e errado e que são vítimas de deficiência ou morrem vítimas de acidentes e catástrofes...

E ainda pior, aquelas que nascem com paralisia cerebral...

− Tudo isso que você está falando faz parte do grande projeto do Criador.

− Vovô!...

Veja o que está falando!...

Está dizendo que toda essa miséria e desgraças existentes no mundo fazem parte de um projeto de Deus?...

− Não da maneira como você está colocando.

Todo projeto obedece a normas pré- estabelecidas, qualquer modificação vai alterá-lo como um todo.

Como o ser humano dispõe do poder de interferir, através das escolhas, evidententemente, a cada erro cometido uma sentença é imposta.

− Tudo bem, mas onde entra as tragédias, as doenças, pragas e tudo de ruim que acontece?

− Vem como ajustes ao projeto, a cada falha e demora na execução.

− O Criador nada tem a ver com as desordens que ocorrem no planeta.

Tudo o que está acontecendo a cada instante no mundo, é responsabilidade nossa.

E não são somente as coisas más, até os avanços científicos e tecnológicos.

− Assim vou pensar que Deus é indiferente...

Que não se importa conosco.

− Somos muito pequenos e finitos para ter condição de julgar os atos do Criador.

O que você não quer compreender é que fizemos um acordo com Ele. Ninguém veio aqui obrigado, todos aceitaram as condições.

Acontece que ao entrarmos na esfera terrestre, tudo foi escondido no inconsciente, um tipo de esquecimento.

− Por quê?

Meu avô percebeu que aquilo tinha me incomodado, disse que estava muito cansado e que iria tirar uma soneca.

Reagi é claro.

− Por favor, vovô, eu preciso saber mais sobre esse assunto...

− Outra hora, pense um pouco depois continuamos nossa conversa.

Não insisti mais.

Ele era uma pessoa metódica, quando dizia algo, estava dito e ponto. Teria que esperar.

Enquanto isso, eu me prepararia com um monte de perguntas para a continuação daquela bomba que caíra dentro do meu cérebro.

Aquele dia demorou a passar.

No outro dia, levantei pensando em tudo o que meu avô havia dito. Fui à escola, mas não via a hora de voltar e interrogá-lo.

Entrei em casa quase correndo.

Na cozinha, encontrei minha mãe terminando o almoço.

Guardei o material escolar e retornei à sala de jantar.

Sala de jantar...

Por que se chamava sala de jantar?

Devia chamar sala das refeições...

Procurava por meu avô. Depois de revirar cada canto, perguntei a minha mãe onde ele estava.

Só então notei seus olhos vermelhos, mostrando que havia chorado.

− O que aconteceu mamãe?

− Seu avô foi internado às pressas e está muito mal.

Custei a crer.

− Como podia ser isso?

Acompanhei minha mãe ao hospital, logo após o almoço.

Entrei quarto adentro num misto de ansiedade e medo.

Amava aquele velho como poucos.

Ele estava com alguns acessórios fincados ao corpo, que só depois soube que era uma aparelhagem que monitorava seu coração.

Ao me ver esboçou um sorriso forçado.

Estava tão quieto que nem parecia ele.

Fiquei ali ouvindo o piii... piii...piii... do aparelho, junto com a respiração pesada que passava por uma espécie de tubo.

Vez por outra ele me olhava, depois fechava os olhos e parecia dormir.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas minha mãe me chamou e voltamos pra casa.

Fora um dia muito triste. Pela primeira vez pensei na possibilidade de perder meu avô. Porém, tivemos muita sorte, ele superou o ataque cardíaco.

Dias depois, tudo perecia ter sido apenas um sonho ruim, mesmo assim, não toquei mais no assunto do “como viemos ao mundo”. Achei até que ele se esquecera.

Numa tarde bonita de setembro, meu avô solicitou minha presença na sala de visitas. Pensei que queria alguma coisa.

Então me pediu que sentasse à sua frente e perguntou: − Onde paramos nossa conversa do outro dia? −Outro dia? Questionei. Depois me lembrei.

− Aquela sobre nossa verdadeira origem?

− Respondi meio reticente.

− Essa mesmo.

− Bem, acho que eu queria saber como era possível Deus permitir tanta dor por causa de um projeto...

− Ah! Foi isso mesmo.

Então vejamos:

O que você não consegue entender?

− Essa história que existíamos antes mesmo de sermos concebido...

E que fomos nós mesmos que fizemos um trato com o criador, tudo isso visando um presente...

− Mas é justamente isso. Ninguém está aqui de inocente...

Todos escolheram viver suas próprias histórias.

− E como o senhor descobriu isso?

− Pesquisando aqui e ali, juntando fatos e artefatos...

Ouvindo depoimentos inteligentes, observando as pessoas...

− Mas isso são conjecturas vovô e não ciência...

− A ciência jamais terá condições de esclarecer pontos como esse. Somos seres eternos, uma vez que passamos a existir, nunca mais deixaremos de viver.

− E por que morremos?

− Quem morre é o material utilizado pra viver nesse pouco tempo aqui. Nossa alma é imortal.

− Olha, aí está uma coisa difícil de acreditar...

Sabe o que penso vovô?

Que somos apenas animais racionais que tivemos a sorte de evoluir.

− E como foi que essa evolução parou e não deu seqüência?

− Isso eu não sei.

Existem cientistas que podem explicar isso...

− E quem disse que eles têm razão?

Como que podem afirmar algo que não conseguem provar?

Nesse caso, prefiro optar pelo mais confiável.

− O que te dá tanta certeza?

Na verdade ninguém sabe quem somos, de onde viemos ou para onde vamos...

− Engano seu minha querida.

Preste atenção num detalhe importante:

Já lhe ocorreu que há quatro raças distintas?

Como a evolução poderia aleatoriamente fazer essa individualização?

Perceba que os traços são completamente diferentes, tom de pele, cabelos e olhos.

Mas quando se trata do tipo sangüíneo embora haja vários, é possível transferir de uma raça para outra sem problema.

Basta respeitar o tipo de cada um.

O mesmo acontece com órgãos que se transplantam.

− Não seria por causa do lugar onde nasceram?

Por isso a fisionomia diferente?

A evolução não teria como prever isso.

E se isso fosse a razão, um negro mudaria de cor vivendo no Alaska. Duvido que isso ocorra.

− Tem razão Vovô, não havia pensado nisso.

Acho que sou jovem demais para entender assuntos tão complexos...

− Nunca é cedo para obtermos conhecimento.

A maioria das pessoas está se perdendo na vida porque querem negar a sua verdadeira identidade.

Somos seres divinos, isto é, possuímos em nós uma faísca de Deus.

Estamos acima dos anjos, pois nossa criação teve por base, a semelhança do Criador.

É por isso que carregamos em nós um vazio existencial, que nada na terra preenche.

Essa ausência é a falta da proximidade com o Autor da vida.

− Está me parecendo um diálogo religioso...

E só de pensar me dá arrepios...

− A religião era para ser um meio de manter acesa a esperança e a fé das pessoas, mas hoje em dia se tornou o ópio do povo.

Deus nada tem a ver com as religiões, isso é invenção humana para fins de dominação por parte da maioria.

− Mas você tem razão, comecei contando uma história e acabamos falando de religião.

Na verdade eu queria que você soubesse que existem muito mais segredos do que se pode imaginar, e que a vida é o maior de todos os mistérios que ainda está oculto ao ser humano.

− Não se preocupe vovô, gosto de te ouvir.

Acabo sempre aprendendo algo novo.

Mas sabe de uma coisa?

A vida para mim é como café.

− Como café?

Nunca ouvi nada igual!...

Deu uma gargalhada generosa.

− Quero dizer que é simples, basta saber como preparar ao gosto de cada um...

Há pessoas que gostam de café sem açúcar e forte...

Outros, apreciam fraco e doce.

E ainda há aqueles que preferem tudo na medida certa, ou seja, equilibrado.

De qualquer forma, tudo é café...

− Creio que ainda não compreendi seu raciocínio...

− Estou apenas fazendo uma comparação de tudo o que disse.

Deus deu a água, o café, o açúcar e o fogo; cabe a nós descobrirmos de que jeito queremos o café...

E não importa como gostamos, no final tudo o que temos que fazer é preparar o café...

O material pertence a quem deu.

Então, o que nos resta é tomar o café que preparamos.

Se acaso estiver ruim, a responsabilidade é de quem o preparou... Não era isso que estava tentando me dizer sobre nossa existência?

− Seu Manoel ficou pensativo por um momento, e então sorriu pra neta com admiração.

Ele havia feito tantos rodeios e floreios para contar aquela história sobre a existência.

E ela, no entanto, com um simples comentário resumira toda a narrativa complicada que fizera em um ato de fazer café...

− É quanto mais se vive, muito mais se aprende!

− Pensou consigo mesmo...

As coisas estão sempre mudando, e os jovens de hoje não são desligados como a maioria pensa.

Eles pensam de um jeito diferente, só isso.

E no final, sua neta tinha razão...

A vida é como café...

 

Autora: Lúcia Maria.

Fim...

 

A morte é como arrumar a mala para viajar...

Estradas, atalhos, caminhos, que sempre convidam para caminhar...

É bom arrumar sempre a mala e deixá-la na sala, perto do sofá. A dor de quem parte é a dor de ver o seu amor esperando no cais...

A dor de quem fica é a dor de ver o seu amor acenando pra trás... Nos versos do compositor encontramos algumas verdades que nos convidam a pensar sobre esse assunto tão importante para todos nós, que é a morte. Sim, inevitavelmente chegará a hora da partida. E como ninguém sabe o momento que terá que partir, é importante deixar a mala sempre bem arrumada, para não ter do que se lamentar depois. Mas, afinal, o que significa arrumar a mala? Certamente não levaremos roupas, jóias, livros, dinheiro e outras coisas materiais. Mas, então, o que arrumar? Talvez fosse interessante começar pelos relacionamentos, compromissos e deveres. Nesse sentido, arrumar a mala é arrumar a vida espiritual. Como estão os compromissos assumidos? Você está dando conta de todos, ou tem muita coisa pendente? E os relacionamentos, como vão? Alguém guarda mágoa de você? Não importa se com ou sem razão, vale a pena desfazer esse nó. Você sente ódio de alguém? Aproveite o momento e resolva isso. Não deixe essa pendência lhe tirar a paz, logo mais. Se você tiver que partir de repente, isso estará solucionado, e sua mala estará mais leve. Como está com relação aos estudos? Tem aproveitado os dias para iluminar a razão? Enquanto tem tempo, use-o para adicionar a riqueza do conhecimento à sua bagagem. O conhecimento jamais se perde e você poderá fazer uso dele a qualquer momento. E o relacionamento com os filhos, pais, irmãos, amigos, vai bem? Não ficará nenhum abraço a ser dado, nenhum pedido de desculpas pendente, nenhuma atenção desdenhada?

As pendências não permitem que a mala se feche adequadamente, e isso pode causar fortes sofrimentos para ambos os lados... E a saúde, como está? Você tem cuidado do seu veículo físico como deve? Não permita que o descuido lhe arrebate do corpo antes do tempo. Isso lhe traria sérios dissabores. Assim, arrumar a mala quer dizer retirar da bagagem espiritual as mágoas, os rancores, a inveja, os ciúmes, os ódios, e outros detritos que pesam sobre a economia moral. É buscar resolver todas as questões que nos tiram a paz. É desenvolver laços de verdadeira fraternidade com aqueles que nos rodeiam. Os sentimentos infelizes que agasalhamos na alma, contra alguém, nos vinculam a esse alguém, nesta vida ou no além, perturbando-nos e infelicitando-nos. Já os conhecimentos, as virtudes e os laços de afeto são excelentes contribuições para a conquista da felicidade. Consideremos que o simples fato de viajar para o mundo espiritual não nos liberta das nossas mazelas e não nos retira as virtudes já conquistadas. Somos, aqui ou no além-túmulo, herdeiros de nós mesmos. Por isso é de suma importância termos a devida atenção para com a nossa bagagem espiritual. Viver com sabedoria é não deixar o que pode ser resolvido hoje, para resolver num amanhã incerto... Pense nisso, e procure deixar a sua mala sempre em ordem, para o caso de precisar partir sem ao menos poder dizer "até logo"...